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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Silêncio



A morte veio.
Chegou derrubando tudo,
quebrando planos,
ceifando sonhos.
Fez o maior barulho,
me deixou surda, cega, seca.
Escolheu, levou, calou.
E então, o barulho pior
tomou conta de tudo:
o som do seu silêncio,
o som da sua ausência,
o som da minha saudade.
É o que ouço até hoje;
a tua partida ecoando
na minha vida.

Sempre que lembro de você
apuro os ouvidos,
presto atenção nos ruídos e,
às vezes, tenho a impressão
de te ouvir dizer:
- Filha, o silêncio sou eu...
é nele que eu vivo.
Ouça o silêncio e eu sobrevivo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Cadáver do Rio

Nasceu puro e generoso,
abriu caminhos, gerou vidas e
acabou cercado de Marginais.
Tem gente que pára pra olhar,
outros reclamam do mau cheiro,
mas ninguém sabe explicar
tamanha crueldade.
Políticos prometem reação,
recuperação,
mas ele já não tem cor,
não tem vida.
Está morto e ninguém assume a culpa.
(Pra que culpado num país sem punição?)
Mais uma vítima do abandono,
mais um símbolo do descaso
agora apodrecendo a céu aberto.
Foi atropelado pelo egoísmo,
baleado pela ganância,
esfaqueado pela indiferença e
violentado pela ignorância.
Só falta ser homenageado com
banda, festa e uma placa:
“Aqui jaz o Rio Tietê,
bravo cidadão brasileiro
morto e sepultado
em nome do progresso.”